Com a EMC2 passando a atuar mais incisivamente em áreas afeitas a Finanças – e nossa abordagem será sempre a de tratá-la como um elemento de estratégia competitiva – este primeiro post sobre o tema trata de uma questão central para Finanças: O Banco Central e sua perspectiva a partir da esperada saída do Presidente Henrique Meirelles.
O jornal Valor Econômico, na semana passada, falava da provável ascensão de Alexandre Antônio Tombini ao cargo de Presidente da instituição. Pretendo comentar, neste post e no próximo, a perspectiva de sua confirmação no cargo (primeira parte, a face boa da moeda) e algumas complicações e desafios que ele poderá vir a enfrentar (segundo post, a face desfigurada da moeda).
A alusão à moeda de Harvey Dent (o vilão “Duas Caras” de Batman, O Cavaleiro das Trevas) foi mais que inevitável. Foi natural. Moeda é o objeto central de trabalho de um Banco Central. Mas a moeda de Harvey Dent / Duas Caras é a moeda de um vilão. A que vilão eu me refiro neste e no próximo post?
Nenhum! Ou, senão… a algumas situações colocadas para a economia brasileira e seu sistema financeiro, cujas soluções podem significar bem-estar ou transtornos para o País no futuro próximo. Vamos lá. Primeiro a parte boa.
É bom o Tombini se tornar Presidente do Banco Central, caso isso se confirme. E as razões passam muito além de uma admitida simpatia pessoal. Tombini é funcionário de carreira do Banco Central. Já foi titular de três Diretorias: a de Estudos Especiais, a de Assuntos Internacionais e agora a de Normas e Organização do Sistema Financeiro. Foi representante brasileiro no FMI e é Ph.D. em Economia pela University of Illinois in Urbana-Champaign.
E daí? Em quê isso o diferencia de outros diretores e ex-presidentes e por que um post a esse respeito?
A experiência nas diversas áreas acima e sua formação acadêmica fazem do Tombini uma pessoa mais preparada para assumir o Banco Central do que qualquer profissional “do mercado”. Isso pode parecer heresia, defensores da perfeição e superioridade do mercado pedirão fogueira para mim, mas insisto na defesa desse ponto.
A crise de 2008-2009 mostrou que o mercado não é perfeito. Que erra e erra sistematicamente, embora não frequentemente. Que um agente coordenador é absolutamente necessário e, não, um causador de ineficiências. Então, o Banco Central não é só um “lubrificante das engrenagens do mercado”, mas tem, ou deve ter, atribuições essenciais de regulador do Sistema Financeiro, fiscalizador (pois é preciso assegurar que essa regulação está sendo cumprida), além de elaborador e executor de política monetária e cambial e emprestador de última instância a instituições financeiras (essas duas são atribuições clássicas.)
Um exemplo muito claro para entender isso tudo: sabe por que, leitor e leitora, a crise de 2008-2009 no Brasil foi apenas uma marolinha? Aliás, quem disser que não foi não sabe o que está dizendo, ou não sabe o que aconteceu nos outros países no ano passado. Nem o custo que eles pagarão nos próximos anos.
Pois bem, tudo pelo que se criticava o Bacen mostrou seu valor no ano passado: níveis de depósitos compulsórios altos, sistemas de pagamentos (em especial, os interfinanceiros) com estruturas de proteção extremamente sólidas e regulação prudencial igualmente robusta. Além, inegavelmente, da disciplina fiscal do atual governo. Prá quem acha que isso é grego, não é. Muito pelo contrário. É porque a Grécia não atende a alguns desses quesitos que ela está na encrenca que está.
O post lá vai ficando grande e dizem que as pessoas hoje não gostam de ler muito. Que pena. Então vamos juntar tudo e resolver essa primeira parte: a melhor pessoa para presidir o Banco Central, hoje, ao contrário do que valeu há algum tempo, não é “um cara proveniente do mercado”. É alguém capacitado para a atual maturidade da economia brasileira, na qual o papel de um Banco Central é muito mais amplo do que garantir operações do mercado financeiro. E numa situação dessa, deveríamos esperar de Ben Bernanke uma frase igual a que Barack Obama falou do Presidente Lula. “Tombini é o cara.” (“That’s my man”)
Maravilha! Estamos salvos e o post vai acabar! Sim …e não. Não se esqueçam que este é o lado bonito da moeda de Harvey Dent. Tem o outro. E o Tombini é “o cara” pelas razões acima, mas porque, graças a elas, é quem tem condições de enfrentar as questões que se colocam à nossa frente. Nenhum motivo para pânico, mas para muito esforço e talento. Conforme mostraremos no próximo post.